Mais importante que o destino, a melhor parte da viagem é o caminho. Algumas passagens engraçadas, irônicas, emocionantes da aventura de ser PAI DA GABRIELA
Quando se é pai/mãe de primeira viagem tudo é uma grande aventura. Por mais que as pessoas tentem te preparar, é na necessidade que você aprende como deve agir. e se determinada atitude está correta ou não. Muitas vezes, os pais dizem uma coisa, mas fazem outra e reclamam quando o filho tem o mesmo hábito. E alguns começam a perceber que seus filhos não aprendem só pela oralidade, mas sim pelos exemplos, ou seja, aprendem se espelhando nas atitudes das pessoas que elas confiam e admiram, além de se identificar com elas.
Em cada fase da vida de uma pessoa, existem vários tipos de espelhos. Quando se é criança os espelhos normalmente são os pais, mas as vezes são até os brinquedos. É através do lúdico que as crianças desenvolvem sua personalidade e seus sonhos. Os brinquedos ajudam elas a serem quem elas quiserem, mas também é importante elas conseguirem identificar suas particularidades nos brinquedos. Como no caso da GABRIELA, que ganhou uma Barbie num lindo vestido e que, assim como ela, se locomove de cadeira de rodas.
Em outras situações, o espelhado se torna o espelho, por exemplo, quando se tem uma deficiência adquirida, uma criança com deficiência de nascença pode ser um grande motivador. Nesses momentos, GABRIELA naturalmente dá show, mostrando toda a sua alegria, sua sede de experiências novas e sua destreza ao sorrir e iluminar outros iguais a ela, sem nenhuma pretensão de ser espelho, mas parece ser inevitável. Já vi outros PCDs mudarem seu comportamento e, na minha humilde opinião, isso aconteceu depois de conhecer a GABRIELA. A chamada fase do "LUTO" que os novos PCDs passam se torna aparentemente mais curta, pois percebem que é sim possível encarar a nova condição com um sorriso no rosto e o protagonismo que é necessário.
Esse é mais uma das VITÓRIAS INESPERADAS que sou brindado ao ser o pai da Gabriela.
Num vilarejo vizinho, os sábios começaram a reunir as pessoas para contar e cantar seus feitos. Apesar de recente, os encontros estavam ficando conhecidos, e pessoas de outros vilarejos começaram a frequentar.
Uma menina de outro vilarejo já tinha tomado conhecimento desses encontros, e até já tinha ido algumas vezes ouvir os sábios. Seus pais, por sua vez, já tinham um profundo conhecimento sobre os feitos dos mestres e costumavam mostrar pra ela os registros disso, então a menina demonstrava um amor por aquelas obras e feitos mas antes desses encontros, ela nunca tinha visto eles com os próprios olhos.
Num determinado encontro, a menina se viu diante dos sábios que, de repente, perceberam o surpreendente domínio demonstrado por ela em relação a algumas de suas obras. Os sábios se emocionaram quando ela repetia em detalhes os seus feitos, a ponto de fazer seus olhos brilharem intensamente. As pessoas também se emocionaram, tamanha era a beleza daquele momento, onde uma pequena luz conseguiu iluminar os que tem por vocação iluminarem os outros.
Agora apresentando os dados dessa história. O local é o tradicional BAR DO ALEXANDRE, no seu também já tradicional evento MÚSICA NA CALÇADA, todas as sextas, das 19:30 até as 22:00. Os grandes sábios eram LUIS HENRIQUE "TCHE" GOMES, KING JIM e FÁBIO LY (MUSKLINHO pros mais antigos). A canja dos grande PAULO MELLO, autor da grande FAZÊ UM BOLO, do TARANATIRIÇA. Ele chegou a dar o microfone durante a música para que as pessoas ouvissem GABRIELA cantando.
Essa é uma GRANDE LEMBRANÇA do dia que o Rock Gaúcho conheceu a Gabriela.
Faz muito tempo que não passo por aqui, não é? Não é que eu não tenha inspiração, até porque o sorriso de GABRIELA é uma eterna inspiração. Mas achava que não haviam boas histórias pra contar. Pois hoje uma apareceu.
Para quem não sabe, atualmente GABRIELA está curtindo e assistindo um novo canal de tv por assinatura, e essa semana ela pediu pra ir num circuito de atividades em um shopping daqui de Porto Alegre, que era baseada em um desenho desse canal. Na hora, o meu outro anjinho da guarda, o principal é a própria GABRIELA, foi me preparando, para que eu soubesse como reagir diante de uma adversidade. E dito e feito, chegamos lá e não tinha nenhuma atividade para crianças cadeirantes. Na hora, meu coração apertou, deu vontade de chorar, por saber que aquela ideia não foi pensada para crianças como Gabriela,
que ninguém pensou "poxa, e se tiver uma criança com dificuldade de
locomoção? Como brincar com ela?". Saí, fui dar uma volta e deixei GABRIELA com Letícia desenhando, na área das crianças menores de 4 anos (a atividade era destinada para crianças entre 4 e 12 anos).
Quando voltei, GABRIELA ainda estava desenhando. Eu e a Letícia concordamos que não tinha como GABRIELA participar do circuito. Pois não é que GABRIELA se vira de costas e vê um "palco", com os três personagens do desenho formando uma banda e um microfone. Lá fui eu pegar a trilha de abertura no YOUTUBE e dar pra ela cantar no microfone. Ela brincou, cantou, chamou a atenção das pessoas e nem se lembrou do circuito. Fizemos um lanche e ficamos mais umas duas horas no shopping, evitando passar pela área aonde tinham os brinquedos.
De minha parte, mais uma vez, eu só tenho a agradecer pela resiliência de GABRIELA, e pedir que as pessoas olhem um pouco para crianças como ela, elas também gostam e precisam brincar.
Esta é mais uma das AGRURAS QUE VIRAM DOÇURAS de ser o pai da Gabriela.
Às vezes, eu mesmo me surpreendo com GABRIELA. A correria do dia a dia de pai dessa linda moça me faz esquecer o quanto ela é resiliente.
Um exemplo disso é que desde o Natal, o primeiro dente permanente dela quer trocar de lugar com os atuais dentes de leite. Algo perfeitamente natural, certo? Nem sempre, quando se trata de GABRIELA. Pois os novos dentinhos resolveram nascer sem os outros terem caído, nos restando apenas a alternativa de extraí-los. Pra ajudar, a dentista da moça saiu de licença maternidade, nos deixando sem indicação de substitutos. Começou uma busca por uma indicação que tivesse procedência mas sem resultado favorável algum. Como a minha esposa tinha consulta no último sábado (dia 23 de janeiro), acabou marcando mais um horário para a sua dentista olhar GABRIELA. Após uma certa resistência, foi examinada e fomos ainda fazer um raio-X, o que também foi muito difícil, sendo convencida depois de muita negociação para fazer as "fotos". O resultado do exame apenas comprovou o que eu e minha esposa já tínhamos enxergado, seria necessário extrair os 2 dentes da frente. E agora? GABRIELA sequer admite sentar na cadeira do consultório, tem que extrair 2 dentes? Como faremos isso?
Como o que não tem solução, solucionado está, acabamos marcando uma consulta para a especialista da própria clinica para hoje, dia 25 de janeiro, e resolver logo o problema. E como os anjinhos da guarda dela sempre são incansáveis, conseguimos uma profissional que é um doce, já foi encontrar GABRIELA no cantinho de brinquedos da clínica, onde ela quebrou o gelo. Depois fomos para o consultório onde ela confirmou a extração e perguntou se a gente queria fazer hoje ou prepará-la em casa e voltar outro dia. Eu e a minha esposa nos olhamos e concordamos que seria muito pior voltar depois. Começamos então um processo de negociação, com direito a não usar a cadeira do consultório, dois anestésicos para não haver dor alguma e algum choro e ansiedade durante a extração dos 2 dentes. Mas nenhum trauma e muito carinho, e tudo feito na sua habitual companheira de muitas batalhas, a cadeira de rodas.
Depois disso, ganhou um estojo para guardar os dentes, tirou uma soneca que a ajudou a não sentir tantos os efeitos da anestesia. Agora ela já conta bem feliz que tirou os 2 dentes pra todos que vê e com um novo sorriso, um sorriso de janelinha, mas com o novo dente já visível, pronto pra ser naturalmente empurrado para o seu devido lugar.
Essa é mais uma GRANDE VITÓRIA da sempre guerreira Gabriela.
Hoje, depois de praticamente um mês planejando ir na primeira praça com um, e eu disse apenas um, brinquedo adaptado para uma criança cadeirante, em vez de ser só felicidade, a alegria virou decepção. Este era o brinquedo no dia que descobrimos ele, dia 25/11/2015.
Agora, 25 dias depois a corrente de aço que segura o portão/rampa para acessar o brinquedo já está estragada, com elos torcidos que fazem com que a rampa não toque o chão, formando um degrau. Como GABRIELA tem pânico de degrau, acabou com a diversão dela e, devido a esse medo, ela começou a chorar.
No primeiro momento, a raiva e a frustração me deixaram com vontade brigar com o mundo, inclusive com GABRIELA, mas ela não tem culpa e nem controle sobre o medo que sente dos degraus que viram obstáculos para sua autonomia.
Depois eu me acalmei, mas veio aquele misto de tristeza com desapontamento de um pai cujos desejos em relação ao filho é que ele tenha as mesmas oportunidades dos outros. Apesar da placa dizer exclusivo para cadeirantes, era uma maneira de incluir para que as crianças interajam, andantes e "rodantes". Mas não, a falta de educação e o senso coletivo das pessoas já estragou o brinquedo, e sei que isso aconteceu porque quando chegamos lá, outras crianças brincavam perigosa e imprudentemente com o brinquedo, chegando ao ponto de uma delas bater com nariz no banco e depois com a nuca no ferro de proteção no assoalho do balanço. Eles recolheram o menino, levaram para o responsável e voltaram a brincar "violentamente" com o brinquedo.
Quando será que a prefeitura irá "consertar" o brinquedo? E quanto tempo durará até que tenha que passar por um novo conserto? Não existe ninguém para cuidar das praças? Sim, eu peço simplesmente que cuidem das praças, pois tenho certeza que para educar as pessoas, não há vontade política para isso. Não formamos mais cidadãos coletivos, estamos correndo para a selvageria e o individualismo. Precisamos tomar uma atitude mais coletiva e sair do mundo do nosso umbigo.
Enfim, essa foi uma GRANDE DERROTA do pai da Gabriela.
Aos 48 do segundo tempo, quero homenagear 3 das coisas importantes na minha vida: O meu pai, a GABRIELA, é claro, e o inter. Esse é um texto de um colorado chamado Luis Felipe dos Santos, mas ele fala de torcedor para torcedor, sem rivalidade, apenas respeito e amor ao futebol e uma relação de pai e filho. Originalmente, ele foi publicado no FINAL SPORTS, em 17/12/2007. O título original do texto é o título da postagem.
Este relato sobre o mundial de 2006 não quer entrar para as antologias. É um relato estritamente pessoal. É sobre como eu vi este jogo com o meu pai.
Meu pai, seu Gilberto, sempre foi fã do grande futebol; por consequência, de Ronaldinho. Isso desde que ele surgiu no Grêmio. Meu pai sempre foi colorado de quatro costados, contava para todo mundo como assistiu todo o campeonato de 1961 (aquele, de Gilberto Andrade e Sapiranga, lembra?) no estádio dos Eucaliptos. Das finais memoráveis que viu no Beira-Rio, a década de 70 inteira, por exemplo. Só que, como amante do jogo bonito, também admirava os craques do Grêmio. Na época, é preciso que se diga, a rivalidade não era essa idiotice de hoje, onde o recalque aparece a olhos vistos: os colorados iam ao Olímpico para ver Aírton, os gremistas apareciam no Beira-Rio para admirar Falcão.
Eu, que já nasci em um tempo de rivalidade idiota, não suportava Ronaldinho. Corneteava a promessa negra gremista com ferocidade, sentado no sofá da sala. Cada cobrança de falta em GreNal era uma agulha a mais no seu vodu. Cada elogio da imprensa do sudeste era uma gota de saliva espumando da minha boca. Cada drible, cada gol, apertava um pouco mais aquele já condoído coração adolescente colorado.
Discutia de forma violenta, feroz, contra Ronaldinho. Não o perdoei nem quando foi para o PSG, deixando os cofres tricolores às moscas. Comecei a ser um pouco mais indulgente quando ele ajudou a conquistar a Copa de 2002. Meu pai continuava com a sua admiração, e zombava da minha raiva de outrora. "Viu? É ou não é um grande jogador de futebol?" sorria, entre um copo decerveja e outro, ao lado da cadeira de balanço.
Pois chegou o Mundial, e o adversário era o Barcelona de Ronaldinho. "Agora esse safado vai ver", eu dizia. O pai lembrava de todas as sacanagens que ele aprontou com os tricolores, mas não adiantava. Era uma bronca pessoal, minha com ele. Ele tinha que engolir as bolas que meteu na rede de Hiran, os chapéus que deu em Dunga, o drible com a mão que deu em Fernando Cardozo. Seu Gilberto, admirador do grande futebol que era, previa que não tínhamos a menor chance. Sempre deixava, porém, uma esperança: "Se até Jurandir marcou Falcão, por que Ceará não pode marcá-lo?" pensava.
Sentado na cadeira de balanço, dedicava o segundo semestre de 2006 a cornetear os atletas colorados. "E esse Edinho! Não sabe dar um passe. E depois a gente quer ganhar do Barcelona", esbravejava. Reclamava também com a falta de contratações: de grande jogador, só um volante, e ainda por cima colombiano. "Saiu aquele guri, o Sobis, e agora? Não temos mais ataque!" Depois surgiram as especulações de que um grande jogador estava surgindo no Beira-Rio. Nas conversas informais em casa, o meu irmão, que é preparador físico do juvenil, dizia que o guri realmente era muito bom de bola. Seu Gilberto só coçava o bigode. "É, mas já tão enchendo muito a bola desse guri. Ele renovou contrato e já apareceu na capa do jornal! Vinte milhões dedólares!"
Isso até o momento em que o guri foi colocado para jogar. No primeiro minuto, um gol. No segundo lance, uma assistência. Os gols foram surgindo, os dribles aparecendo, e seu Gilberto se empolgava na cadeira de balanço, quase quebrando as molas. "Mas esse guri....é MUI-TO-BOM mesmo, hein?" me cutucava. "Ele me parece aquele centroavante que tinha, o Van Basten! Olha ali! Mesmo porte, magrão, alto...é muita qualidade, deusolivre. Quando esse guri dominou pela primeira vez eu já vi que é craque."
Alexandre Pato nos deu uma centelha de empolgação para o Mundial. Quer dizer, mais para ele do que para mim. Eu continuava acreditando que perder por 1x0 era vitória. Sim, eu estava completamente cético, para não dizer apavorado. Sim, eu achava meio insano dar a camisa 11 para um piá com um jogo de profissional. Contra essa corrente de pessimismo, estava a minha mãe, que sempre disse: "Não adianta, Felipe, esse mundial é nosso". Não adiantava falar pra ela de Ronaldinho, de Deco, de seja quem for. Ela estava convencida que era a nossa vez e ponto final. Algo além do racional, do tangível.
Antes do jogo contra o Al-Ahly, fui dormir às 3 da manhã. Pedi para meu pai me acordar às sete. Podre, só acordei com o grito dele no primeiro gol do Pato. Recebi uma reprimenda, claro. Depois daquele sofrimento, saímos os dois pra rua a celebrar a final e abrimos uma cerveja. Meu pai estava fazendo tratamento para o câncer. A mãe chegou ao meio-dia. "Mas Gilberto, bebendo cerveja essa hora? E os remédios?" "Pô, Lena, duas latinhas..."
E que dias foram aqueles até domingo. No dia seguinte, ele convidou o nosso vizinho gremista, seu Anoir, para ver a partida entre Barça e América. Seu Anoir era parceiro do meu pai em todos os jogos pela TV, por também ser fã do grande futebol. E viram os 4 a 0, o show de Ronaldinho e de toda a esquadra azul-grená. Que surra. Eu na casa da namorada, cheguei só ao meio-dia. O pai chegou para mim no almoço: "Aqui ó...não tem chance". E a mãe: "Sem essa de não tem chance. Tem que pensar positivo! Vai dar, não adianta, mas se a gente ficar pensando negativo, pode tudo dar errado!". A mãe seguia acreditando que estava escrito nas estrelas. Eu estava com meu pai. Só um milagre.
A minha descrença era tanta que eu passei um dia 16 tranqüilo. O medo, o pavor, o pânico, só veio à noite, mais uma vez em claro. Meu pai, com alguma dificuldade para dormir por conta dealgumas conseqüências da quimioterapia, virou junto comigo. Eu ficava entre o computador e a TV. Ele ficava entre a TV e o rádio. Volta e meia a gente se olhava. As íris brilhantes de excitação e o queixo um pouco trêmulo, de medo. "Será que vai dar?", perguntei lá pelas quatro da manhã. "Não sei por que, Felipe. Mas agora fiquei com a impressão de que vai dar."
Às sete da manhã, sol nascido, meu irmão André liga de sua casa, para falar com o Giba antes da grande jornada.. A voz era embriagada e o cheiro da carne assada dava para se sentir do outro lado da linha. Quase choraram ambos no telefone. Paulo desceu da sua casa com uma batida de banana e um enorme sanduíche. Depois chegou a Luiza, com cara de sono. A mãe pediu para não ser acordada. O pai disse: "Vou comprar cerveja em algum boteco". "Mas tem em casa!" "Eu sei", e saiu pelo portão.
Começa a tal da decisão. Eu engulo em seco um gole de saliva que imediatamente me arrepia os pêlos da mão, a espinha, e trava o meu esôfago, impedindo até mesmo a primeira bicada no copo dourado com colarinho branco. Olho para a TV. "Já pensou, pai?" "O quê?" "Tu que viu Gilberto Andrade e Sapiranga, quando esperava ver o Inter decidindo o mundo?". "É mesmo", me diz o seu Gilberto. Com a sua careca, o seu bigode, o seu corpo combalido pela quimioterapia e o olhar sagaz que sempre teve. Esse é meu pai.
Esse era meu pai.
Na verdade, seu Gilberto não viu a final contra o Barcelona, pelo menos não neste plano. Ele morreu de câncer em 9 de fevereiro de 2004. Viu o jogo da arquibancada mais alta, aquela que fica entre as nuvens.
Só que cada vez que eu lembro daquela manhã de dezembro, é como se estivesse vendo o jogo abraçado nele. Nunca vimos um jogo abraçados. Talvez aquele fosse o primeiro de todos. Posso ver os seus olhos secadores na falta de Ronaldinho. Posso engolir junto com ele um gole de cerveja cheio daquela saliva seca e tensa, depois que Fernandão saiu de campo. Posso ouvir ele gritando "TÁ PRONTO!" no gol de Gabiru. Posso sentir o seu beijo, com o bigode, depois do apito final. Posso ver a mãe reprimindo mais uma latinha aberta, talvez um minuto a menos no relógio da sua vida. Posso imaginar como seriam os seus cabelos esvoaçando no carro, em direção à Goethe, e as mãos frenéticas apertando a buzina como se ela tivesse obrigação de tocar sem parar enquanto o Inter fosse o maior time do mundo.
Meu pai não estava do meu lado, mas eu vi o jogo ao lado dele.
Assim como todos os grandes colorados que se foram antes de Gabiru. Acreditem, eles estavam ali. Compartilhando da mesma alegria, levantando a mesma taça, pulando no mesmo asfalto.
O título era desta Terra, mas a euforia estava muito além deste mundo.
Pai, muito obrigado pelo dia 17 de dezembro de 2006.
Pra completar, dois vídeos, a apresentação do gol do mundial na festa de reinauguração do Beira-Rio e a melhor narração do gol que me emocionou e sempre me emocionará
Ao meu pai, obrigado por ter me feito colorado e que eu passasse esse amor também para GABRIELA.
No aniversário de Gabriela, quero compartilhar com quem me dá a honra de ser lido algumas pequenas alegrias da imensa felicidade que é ser pai da Gabriela.
Há exatos 5 anos, eu sequer imaginava o tipo de pai que iria me tornar
naquela manhã de outubro, mas eu precisava ser forte, por mim, por Letícia e por Gabriela.
Naquele dia, acordamos muito cedo e, apesar de toda fé e amor em nossos corações, não tínhamos noção do tamanho da tarefa que teríamos pela frente. Na foto, é nítido o nervosismo pré-parto da Letícia.
De minha parte, assim como todo pai sonha com ter pela primeira vez o filho em seus braços. eu não seria diferente e, apesar orientação da obstetra de que isso seria impossível naquele momento, o meu lado emocional nutria esperanças. É claro que isso não aconteceu, mas pela necessidade da situação eu não tinha direito de reclamar, mas estava frustrado, e esse sentimento ficou presente por 15 dias, até que tive a grande surpresa, proporcionado pela necessidade de higiene do berço aquecido da Gabriela, conforme é nitidamente notado na foto.
Naquele momento, eu fiz uma promessa a mim mesmo que eu viveria intensamente para manter o sorriso em meu rosto, e sabia que a única forma disso acontecer era buscar a manutenção do sorriso no rosto da Gabriela.
A partir dessa premissa,no aniversário de 5 anos dela, eu quero compartilhar com quem estiver lendo este texto alguns dos melhores sorrisos de Gabriela. Que eles iluminem um pouquinho o dia de vocês como inundaram minha vida de felicidade.
Todo o pai acha que seu filho é o maior do mundo. Todo pai transfere seus sonhos e aspirações para seus filhos ou apoia os sonhos dele. Em resumo, todo o pai que se preze, acha que seu filho é seu sol particular. Nesses últimos dias, eu tomei um susto pois descobriram o meu sol. E o pior, o meu sol não é mais só meu, é do mundo todo. E quando falo do mundo todo, é do mundo todo mesmo.
Desde que recebi a honra de acompanhar a minha filha e sermos dois dos representantes do RS PARADESPORTO na TV, a minha vida mudou um pouco. Começa que, ao entrar no estúdio, o músico Léo Magalhães está ensaiando PRIMAVERA do Tim Maia, que é uma música que eu canto para Gabriela desde antes dela nascer, ainda na barriga da Leticia. Naquele momento ela vira pra mi, em sua fiel cadeira de rodas e diz, "PAI, A NOSSA MÚSICA", e me abraça com tamanho amor que eu automaticamente encho os olhos de lágrimas. A partir daí é só emoção até o final do programa.
A partir daí, negar que a vida não mudou seria uma mentira, pois as pessoas te olham de um jeito diferente. Muitos olham com admiração e principalmente, muito carinho. As redes sociais foram a loucura, e tive o cuidado de responder a cada uma das pessoas. Se passou alguém, aproveito para pedir desculpas. E tenham certeza, foram inúmeras lágrimas de felicidade por ler tantas palavras de carinho.
O "pior", na realidade é o melhor, é observar os olhares para Gabriela. Todo mundo irradiado pelo meu sol. Todos energizados pela sua luz, pela sua doçura, pela sua energia. As vezes eu me vejo envergonhado, pois ela chama a atenção por onde passa, e as pessoas acabam perdendo o foco, deixando quem deveria ser a atração sem graça e sem platéia.
Se um dia eu queria que minha filha fosse do mundo, que encarasse ele de frente, hoje eu vejo que na realidade, o mundo está de pé, aplaudindo ela. E, claro, eu também..
Enfim, esse é UM DOS BENEFÍCIOS de ser o pai da Gabriela.
Toda vez que precisavamos, que tínhamos que começar uma etapa ou um obstáculo surgia do nada, sempre um anjo aparecia. Eles nos faziam retomar o caminho, nos colocavam no prumo. Em alguns momentos, não era possível entender o motivo e, as vezes, demandava um certo tempo, mas sempre aparecia um anjo para nos indicar o caminho certo para avançar na nossa batalha. Esses anjos, as vezes eram pessoas anônimas, outras vezes pessoas da nossa rotina, que um dia eram a benção e no outro se tornavam anjos. Uns ficaram apenas um instante no nosso horizonte, outros passaram algum tempo, alguns permanecem a vida toda. Para todos eles, só temos uma coisa a dizer:
OBRIGADO!
Essa é uma ORAÇÃO DE AGRADECIMENTO aos anjos do pai, da mãe e da própria Gabriela
Em meados do segundo semestre de 2012, em uma reunião de avaliação da Gabriela, uma das profissionais envolvidas sugeriu que Gabriela utilizasse uma máscara. Na hora, eu fiquei doido, com uma raiva cega, quase fui as vias de fato com ela. Minha vontade era de cometer uma loucura, uma imbecilidade, já que ela disse que minha filha era feia demais para mostrar o seu rosto para as outras pessoas.
Passado uns 45 dias, minha esposa me comunica que aceitou e encomendou a máscara. Naquele momento, a raiva novamente me subiu a cabeça, mas ela alegou que estava se sentindo pressionada, então ela cedeu, mas não significava que Gabriela iria utilizar aquele objeto tão demoníaco e horripilante.
Foram alguns meses, utilizando a máscara em casa e ambientes que poderiam ser controlados por nós até termos coragem de sair com ela na rua. Foram alguns dias caçando os olhares das pessoas, em busca de um olhar de pena ou pseudo-sofrimento por achar que entenderiam o que Gabriela estava passando. Quando já não buscávamos mais esse tipo de reprovação, em um dia, num Shopping Center daqui de Porto Alegre, casualmente eu vi uma moça lamentando. Na hora, o sangue me subiu a cabeça, pois li nos seus lábios, a pior palavra/julgamento que se pode ter por um ser na face da terra: "COITADINHA". No auge da minha raiva, mas ainda sem perder a razão, só pude proferir, olhando nos seus olhos: "Coitadinha, por quê?". E segui meu caminho, eu, minha filha e a sua máscara, felizes e contentes como se nada tivesse acontecido.
Passado mais alguns meses, conhecemos um outro mascarado e sua fiel escudeira, e realmente começamos a perceber que um outro mundo existia, mesmo usando máscaras. Podíamos realmente brincar, se divertir, dançar, praticar esportes e, principalmente, respeitar e lutar para que as pessoas que não usam máscaras nos respeitem, pois apesar de usá-las, nós vestimos, nós comemos, nós sentimos e nós existimos.
Se um dia eu tive medo ou vergonha de ver uma pessoa de máscara, não pelo objeto em si, mas por achar que eu compreendia como ela estava se sentido, hoje eu digo: quer saber como é realmente, vista a máscara. Essa é a minha família experimentando coletivamente usar e ver os outros usarem máscaras.
Esta é uma PEQUENA LIÇÃO que o pai da Gabriela aprendeu com três pessoas que eu respeito e admiro muito. Obrigado Bibiana Silveira, obrigado Cintia Florit e obrigado Luiz Portinho, mas principalmente obrigado meu holofote, meu sol, OBRIGADO GABRIELA.
Gabriela tem um monte de brinquedos, alguns favoritos, outros nem tanto. Brinquedos abduzidos da casa de amigos, como o Odie (personagem recorrente dos quadrinhos do Garfield) de pelúcia, outros recebidos de presente e ainda maiores que ela, seja a linda Marieta ou a Emilia, duas bonecas. E alguns ainda tem uma história particular.
Filó
Antes dela nascer, fomos ao centro comprar umas coisas para Gabriela. A Letícia ficou tão louca com uma centopéia toda colorida de pelúcia que não sossegou enquanto não trouxe ela para casa. Cabia a mim dar nome a nova moradora. O primeiro nome que me veio a cabeça foi FILOMENA, vulgo Filó. O curioso é que nunca vou saber o porquê desse nome, pois não conheço ninguém que se chame assim. Não é que Gabriela realmente se afeiçoou a Filó, a ponto de dormir todos os dias ao lado. Como ela tem o hábito de abraçar os bichos, invariavelmente eles acabam em baixo da axila dela. Como resultado disso, Filó ganhou um sobrenome, "SUVAQUENTA".
Marreco
Outro membro bem peculiar da família é um macaquinho de pelúcia que vai no analista toda a semana com crise de identidade. Para contextualizar, em 2012, estávamos em Florianópolis, quando minha esposa comprou o brinquedo para ela. Ela foi comprar um presente para outra criança e acabou levando o macaco para Gabriela. Algumas horas depois, na pousada onde estávamos hospedados, pergunta-se para a Gabriela qual vai ser o nome do macaco. Ela, sem pestanejar diz: "MACACO". A Letícia tenta explicar que o brinquedo é um macaco e que ela poderia colocar um nome diferente. A mesma resposta se repetiu mais umas duas vezes, até que ela foi convencida de que "macaco" não era um bom nome. Pois bem, aí ela solta a pérola, impossível de novamente negociar uma mudança de ideia, alegando que o nome escolhido era o nome de outro bicho, e o pior, não sabíamos de onde ela tinha tirado aquele nome. E o nome do macaco ficou Marreco. Agora vocês imaginem a crise de identidade, é marreco ou é macaco, é ave ou mamífero. Resultado: tive de levar o animal ao psicólogo.
E essa é mais uma GOSTOSA LEMBRANÇA do pai da Gabriela.
Segundo uma antiga fábula africana, os leões guerreiros não se sentiam confortáveis de receber seu berimbau de presente, instrumento que lhe conferia nobreza e respeito. Para eles, era preciso conquistar essa honraria. E mesmo depois de alcançar esse privilégio, era necessário manter uma atitude digna de tamanha distinção.
Por outro lado, os mesmos leões guerreiros ficavam extremamente satisfeitos e lisonjeados quando seus filhos eram agraciados e tinham o direito assegurado de seguir no mesmo caminho, sendo presenteados com o berimbau pelos leões mais antigos e experientes. Era sinal de agradecimento e que o leãozinho estava seguindo os passos dos pais. Claro que também é uma responsabilidade, tanto para pais como para filhos, já que essa era uma maneira de manter a tradição e os valores que o berimbau representava.
Dentre muitas facetas na minha vida, uma delas é a de usar o leão e o berimbau como símbolos, e de honrar o "pé" do berimbau, onde o combate normalmente começa e termina, dependendo do adversário. O que eu não esperava, é a alegria que meus irmãos de capoeira me deram esse final de semana que passou, proporcionando uma alegria tão intensa quanto o sorriso da minha guerreira ao ser honrada com o leão e o berimbau. O brilho dos seus olhos e a luz dos seu
sorriso, só não são maiores que os meus hoje, e só serão superados
quando um dia puder realizar o sonho de jogar capoeira com a minha Gabriela.
Essa é uma GRANDE VITÓRIA do pai da Gabriela e dela também.
Antes de começar o texto, peço que peguem seus dicionários ilustrados e procurem a palavra RESILIÊNCIA. Se não estiver a foto de Gabriela ao lado da palavra, mandem de volta para as editoras e peçam um atualizado.
Resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade do indivíduo de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. A resiliência se trata de uma tomada de decisão quando alguém depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer. Essas decisões propiciam forças na pessoa para enfrentar a adversidade. A resiliência como uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades.
fonte: wikipédia
De minha parte eu tive o prazer de aprender esse conceito na prática com a nossa guerreira. Sinceramente, a sinergia entre a gente e a Gabriela é tanta, que ela motiva a gente a ter força de vontade para resistir a todas as provações e as diversas batalhas que passamos até agora.
Para se ter uma ideia, na primeira cirurgia após estar em casa, lá no longínquo janeiro de 2012, depois de um procedimento de 4 horas usando tubo de oxigênio, ela desperta, bate palmas, atira beijo para a equipe médica e pede colo. O detalhe desse caso é que a cirurgia era para tentar impedir que o cerebelo entupisse o canal medular o que poderia ter graves consequências. O procedimento foi tão complicado quanto a serenidade dela pode transmitir na foto.
Na segunda cirurgia, em julho do mesmo ano agora para soltar as raízes medulares que estavam presas nos ossos da região do sacro, ela reagiu tão bem no pós-operatório que saiu do hospital dois antes do previsto, conforme o sempre presente sorriso demonstra.
Na terceira cirurgia, essa ortopédica e em janeiro desse ano, antes de entrar para a sala de preparação, ela estava fantasiando que iria para um concurso de princesas e depois da mesma, na sala de recuperação, ela estava tão preocupada em ir embora que pediu ao médico que deixasse ela olhar o desenho enquanto tomava o achocolatado dela.
Mas tudo isso é uma preparação para a maior etapa, a que realmente começou em setembro. Chegou o tão esperado tutor. No começo, como sempre, Gabriela foi resistente, chorou na penúltima prova, se agarrou em mim na prova definitiva. Começamos um trabalho de adaptação e em poucos dias, apesar dos resmungos normais, ela estava usando o aparelho. Algumas sessões de terapia e, no dia do aniversário da minha guerreira, compartilho com vocês uma pequena parte do que é ser presenteado com essa verdadeira força da natureza.
E essa é apenas uma pequena parte da GRANDE AVENTURA que é ser pai da Gabriela
Chegar em um ambiente que se mostra inóspito, demonstrando claramente o quanto somos estranhos e não somos muito bem quistos. Foi assim que nos sentimos hoje. Parecíamos estar em terreno inimigo, invadindo um espaço que não tínhamos o direito de estar lá.
Alheio a tudo isso estavam nossos principais guerreiros, ainda munidos de suas armas tradicionais, mas esperando ansiosamente por armamento especializado para a batalha que estava por vir. Contudo, como pode acontecer quando estamos em guerra, nosso armamento não chegou a tempo. Restava a gente usar o que tínhamos naquele momento. E foi o que fizemos.
Apesar do ambiente externo ser um pouco hostil, o local onde a contenda aconteceria era mais aprazível, de maior receptividade. Com os proclames de abertura, percebeu-se que a mesma se daria na forma de duelos, onde cada lado teria duas chances de mostrar sua força. Do nosso lado, tomamos uma estratégia mais ampla e coletiva, não revelando de vez todo o nosso poder, mas dando idéia do que poderia acontecer se fossemos desafiados.
E foi exatamente o que o outro lado fez, contra-atacando com sua arma mais pesada, de grande poder bélico, nos deixando meio desnorteados diante da beleza e plasticidade da forma como lutavam. Tínhamos que reagir de alguma forma, e foi o que fizemos, mandando para cima deles nossos 3 guerreiros mais experientes, mais voluntariosos e melhores preparados. Naquele momento, ganhamos o respeito do nosso adversário. Mesmo assim, tentaram algo diferente, mostrando sua fibra e sua paixão pela luta.
No final, para demonstrar quão grandiosa foi aquela batalha e quão grande era a nossa satisfação de sermos vistos como iguais, mostramos uma nova arma, mais diversificada, mas que nada mais era que um movimento de comemoração, uma tentativa de tentar mostrar ao adversário que podemos ser diferentes, mas temos a mesma paixão e o mesmo amor pelo bom combate. Sendo assim, teremos que conviver e respeitar uns aos outros.
Esse foi mais uma INEBRIANTE AVENTURA na minha vida de pai da Gabriela.
A vida é feita de escolhas. A partir do momento que decidimos aceitar a Gabriela, temos a certeza que fizemos a escolha mais certa das nossas vidas.Segundo a sabedoria popular, o CARA lá de cima não lhe dá um fardo que você não possa carregar, e nós acreditamos sinceramente que isso é verdade, pois sempre, nessa trajetória de mais de quatro anos, as soluções surgiam quase que imediatamente após os obstáculos.
Eu escolhi papai, eu escolhi mamãe e eu escolhi a Gabriela.
Nessa célebre frase proferida pela própria guerreira, está a definição perfeita a nossa família. Uma teoria disse que fomos nós que pedimos essa tarefa, e se isso realmente aconteceu, nos sentimos honrados da decisão que tomamos. É claro que inúmeras vezes, durante a caminhada, fraquejamos mas apenas para nos levantarmos, secar as lágrimas e seguirmos em frente. Essa foi mais uma GRANDE BÊNÇÃO dos pais da Gabriela.
Eu já comecei inúmeras vezes esse texto, e das mais diversas formas, devido a avalanche de sentimentos que o texto e os fatos que serão relatados me proporcionam. Por fim, resolvi contar uma fábula ou seriam três episódios de uma guerra conjunta contra um inimigo comum: o diagnóstico definitivo. Os três episódios terão como protagonista um guerreiro diferente, e se houver a devida autorização, eles serão identificados.
A primeira batalha a ser narrada é da minha heroína favorita, a linda e sorridente Gabriela (ainda não sei quem autorizou, mas acho que devo correr o risco), que nos seus primeiros meses de vida, nos foi dito que as pessoas portadoras do diagnóstico dela (hidrocefalia) tem dificuldade de formar frases. Para quem conhece essa guerreira, sabe que o que ela tem menos é dificuldade de falar, fala melhor que eu e muitos que conheço.
A segunda batalha é de um menino esperto que teve diagnosticado uma síndrome tão rara que ele era o terceiro caso no Brasil. Procurando ajuda de uma das mais renomadas instituições do país, ao invés de tratarem ele, o associaram a outro diagnóstico. Com a evolução do menino, chegando aos parâmetros pré-estabelecidos no seu pseudo-diagnóstico, estavam tentando dizer que a guerra estava ganha, mas o menino sequer andava, e falar muito menos. Seus irmãos de batalha (família) sabiam que baseado no inimigo real esses objetivos poderiam ser alcançados. Então a instituição marcou uma avaliação, mas com os avaliadores querendo declarar a vitória absoluta. Durante a avaliação, os pais do guerreiro estavam sentados em um banco de frente do menino, mas a uma distância considerável. Pois o guerreiro, levantou-se de onde estava e, cercado por suas escudeiras foi caminhando cambaleante até a mãe, passando pelos avaliadores que, tenho certeza, ficaram com cara de abobados por ser "impossível" o que estavam testemunhando. É óbvio que tiveram que seguir o tratamento.
A terceira batalha não tenho muitos detalhes, mas foi em uma outra instituição, também renomada, onde foi dado um parecer de incapaz. Pois esse incapaz, é técnico em contabilidade e eu vi ele fazendo auto-escola. Não sou formado em medicina, mas será que alguém declarado incapaz pode tirar carteira de motorista?
A lição que eu tiro dessas três batalhas, é que mais importantes do que o diagnóstico fala sobre você, é como você encara o diagnóstico.
Essas são as MAJESTOSAS VITÓRIAS de guerreiros tão grandiosos quanto a Gabriela.
Esse é meu quarto dia dos pais desde que você está na minha vida. No primeiro, você ainda estava na barriga, se mexia para caramba, mas eu ainda não podia tocá-la. Quando você teve a oportunidade de me dar o seu primeiro presente, sua mãe conseguiu registrar com a foto abaixo. Essa foto permanece até hoje ao lado da minha cama, acordo todos os dias olhando para ela. E toda a vez eu abro o meu presente.
No segundo, fui brindado com uma camiseta com uma foto sua que representa a forma como você encara o mundo, e toda a vez que eu visto essa camiseta, novamente abro o meu presente.
No terceiro ano, a escola foi o instrumento da recordação. E ela também utilizou uma foto, dessa vez comigo junto utilizando o presente mais importante que você me deste.
Toda a vez que vejo o seu sorriso, toda a vez que você me acorda, me chamando de paizinho, beijando minhas costas, quando você deita ao meu lado e faz um carinho na minha cabeça, tocando no meu corpo para se sentir segura, eu uso o meu presente. O meu maior presente é o sorriso de alegria e felicidade que eu ganhei desde o momento que descobri que eu seria o pai da GABRIELA. É por ele que eu tenho certeza que todos os dias são dias dos Pais. A alegria com que você encara o mundo me dá ainda mais força para encarar a guerra que estamos travando.
Obrigado por me escolher para ser seu pai, assim como seu que escolheu a sua mãe para o papel dela. Ah, e obrigado por escolher ser a GABRIELA (palavras suas).
Essa não é uma vitória, derrota ou vergonha, e sim uma declaração de amor por ser O PAI DA GABRIELA.
Tudo corria normalmente na UTI, se é que pode ser normal viver dentro desse mundo. Intercorrências, compartilhamento de vitórias, algumas pequenas derrotas, muitos ladinhos, vários colos, inclusive das técnicas que saiam embalando Gabriela durante a noite (ela já era irresistível). Muitos laços, sons, mamadas, arrotos, fraldas e etc. Mas no dia 20 de Novembro de 2010, pós uma bela mamada, Gabriela está deitada de lado no colo da mãe quando a mãe começa:
- Filha, quando tu estava na barriga da mamãe, tu se comunicava com a mãe se mexendo.
- Huuuummmmm! - Gemeu a Gabriela.
- E agora filha, que tu tá fora da barriga, como tu vai se comunicar?.
E a Gabriela nos brindou com esse lindo sorriso, um sorriso que parece permanecer eternamente em seu lindo rosto. O mais puro e belo sinal que as coisas seriam difíceis nos próximos tempos, mas sempre acabariam com esse sorriso maravilhoso.
E essa foi uma GRANDE BÊNÇÃO pro pai e pra mãe da Gabriela.
No dia do nascimento de Gabriela, saí do hospital depois das 8 da noite. Passei no meu pai para jantar, peguei umas cervejas e fui para casa. Estava cansado, precisava relaxar primeiro para depois dormir. No segundo dia de vida, Gabriela já iria passar por uma cirurgia, o que implicava em anestesia e isso aumentaria ainda mais o risco da já delicada situação. Não sei se foi por defesa ou por cansaço mesmo, só retornei ao hospital no outro dia, por volta das 10 da manhã. A cirurgia estava marcada para as 7 da manhã, e ainda não tinha acabado. Fui ver a Letícia (convalescendo bem da sua cesariana) e meus pais, que tinham sido informados que a cirurgia iria ocorrer em um andar, mas na realidade, acontecia em outro.
A cirurgia acabou depois das 11 horas e, após falar com cirurgião e equipe, fiquei esperando Gabriela acordar para poder cheirar ela, tocar sua mão, ouvir seus ruídos, velar seu sono, etc. Sempre rechacei aquelas pessoas que ficam apertando, amassando o bebê ou a criança, mas o fato de não poder dar nem um colo para minha filha, me forçou a descobrir novas formas de demonstrar carinho e que eu estava ali. Como Leticía ainda estava internada, eu literalmente passei o dia inteiro no hospital, ajudando e esperando que a dieta fosse liberada, pois queria "ver" a fome de Gabriela. E quando Gabriela começou a mamar, foi a glória. Ainda tinha que ser de mamadeira, já que não era possível amamentá-la diretamente por conta da cirurgia, mas mesmo assim queríamos que nossa guerreira se alimentasse. Como nem tudo é fácil nessa vida, Letícia acabou virando escrava da Medela (aparelho utilizado para extrair o leite das mamas), o que não é uma situação confortável.
No outro dia, Letícia teria alta do hospital. Iríamos para a casa dos meus pais, que moravam próximo, para qualquer intercorrência, seja com a Gabriela ou seja com a Letícia. E foi assim o final de semana inteiro, só saíamos do hospital para dormir ou comer. Na segunda, já fomos para a nossa casa, pois os pontos da cesariana estavam com boa cicatrização, com menores chances de intercorrências.
Tudo corria bem até a quinta-feira, dia da segunda cirurgia, para colocar uma válvula na cabeça da Gabriela e resolver a hidrocefalia. Essa válvula é ligada a um cano que despeja o excesso de liquor na bexiga, o qual é eliminado na urina. Eu precisava assinar um termo de responsabilidade no consultório do médico, antes da cirurgia. Mas como a cirurgia era de tarde, eu iria fazer de manhã isso. Acontece que naquela madrugada, lá pelas 5 da manhã, o nosso anjinho da guarda nos acordou, então resolvemos ir ao hospital. Dentro da rotina da UTI, entre 6 e 7 da manhã, os pais não podem entrar, por conta da troca de plantão. Pois uma técnica saiu da UTI, nos viu e mandou que a gente entrasse e nós, bem felizes entramos. Mal nós sabíamos que a nossa entrada foi permitida porque o médico adiantou o horário da cirurgia, e a mesma seria feita as 8 da manhã. Com isso Gabriela estava já de jejum e, por consequência, chorava desesperada de fome. Chegamos perto, demos um beijo e eu tomei a iniciativa de cantar para ela. Me lembro que a primeira foi o famoso "boi da cara preta", mas não deu muito resultado. Então tentei uma música que estava sempre cantando para ela durante a gestação, pois naquele ano o Pato Fú tinha lançado o disco Música de Brinquedo, e eu estava ouvindo música. E a música que eu mais gostava era essa:
As técnicas chegaram a se emocionar com a Primavera do Tim Maia pois foram os únicos minutos que Gabriela ficou quietinha, só ouvindo. Logo depois, levaram ela para a sala de cirurgia e tudo correu bem mais uma vez.
Mas ainda tínhamos um desafio, a cicatrização da primeira cirurgia, pois a pele da região lombar era muito fina e tinha o risco de necrose, o que poderia levar a uma nova cirurgia, dessa vez, plástica para enxertar tecido epitelial na região. O fantasma de um novo procedimento não estava nos nossos planos naquele momento, pois além dos riscos diversos de um procedimento cirúrgico, isso iria segurar a gente mais dias no hospital. Pois não é que mais uma vez o meu anjo da guarda me ajuda, e ele sopra no ouvido da enfermeira responsável pelo turno a lembrança que ela tem de um medicamento cicatrizante. Resultado, sem cirurgia, e eu finalmente, no dia 04/11/2010, tive a honra de, pela primeira vez, pegar Gabriela no colo.
E essa foi mais uma GRANDIOSA VITÓRIA de Gabriela, do pai dela e da mãe dela.
Finalmente estava chegando a hora. Um fato que nos assombraria até o dia do nascimento é que não poderia haver nenhuma intercorrência, nenhum risco de Gabriela nascer antes do tempo, pois o risco de sequela seria muito grande. Apesar de estarmos muito nervosos, tudo deu certo e chegou o grande dia. Acordamos cedo (5 da manhã) e as 6 já estávamos no Mãe de Deus, cada vez mais apavorados, conforme vocês podem ver nessa foto da Letícia tirada na sala de preparação.
Assisti ao parto (um ato de coragem que n666unca pensei ter), e como não suporto ver sangue e outras situações ligadas a uma sala de cirurgia, só fiquei focado na Letícia, me escondendo nos panos (ou campos, como a obstetra e o anestesista chamaram). Mesmo com a grande incisão feita por ela, além do auxiliar, o anestesista teve que ajudar para evitar sequelas por conta da hidrocefalia.
Lembram do box explicando como era a rotina de um parto no último post? Pois bem, nada daquilo aconteceu conosco. Fomos instruídos que após o bebê nascer, os médicos cortariam o cordão umbilical e levariam ele para a mãe dar o primeiro colo. Depois o pai levaria ele para checar peso e altura, correto? Errado. Sequer pegamos Gabriela no colo, a pediatra recebeu ela do médico e levou ela para pesar. Depois disso, levou direto para o berço aquecido na UTI neonatal a qual ainda não podia ve-la. Eu sai para dar notícia aos nossos familiares.
Logo depois, veio a obstetra, explicando que Gabriela iria ficar na UTI por risco de infecção, etc. Mais uma frustração, pois ninguém conseguiria ver Gabriela naquele dia, exceto eu. Mas como meu anjo da guarda nunca me abandona, logo depois que fui conhecer a UTI e sua rotina, para minha surpresa fui informado que existem 3 dias de visita, quarta, sábado e domingo, das 16 às 16:30. Adivinhem que dia da semana era aquele 20 de Outubro de 2010? Quarta-feira. Resultado, tanto minha mãe quanto a Dulce (minha sogra postiça) viram Gabriela.
O resto do dia, fiquei na UTI com a Gabriela, deixando a Letícia mais aos cuidados da Dulce. O mais legal e, ao mesmo tempo, angustiante foi que a minha filha nasceu pronta para sugar, ávida de fome, mas não podia consumir o leite da mãe dela, pois o risco de agravar a lesão ainda era grande. A alimentação naquele primeiro dia ficou restrita ao soro. Mas como era de se esperar, tão
guerreira quanto ela foi dentro do útero, ela seria aqui fora. Tanto que as enfermeiras deram um bico para ela
continuar a ser estimulada na sucção. Parecia a Meg Simpson com tantos
estalos que dava sugando a chupeta.
Essa foi a quinta PEQUENA VITÓRIA de Gabriela, mas nem tão pequena assim.